Deixando Murdoc e a versão mais nova de 2D se acertando, Noodle foi em direção ao Winnebago encontrar o Young Murdoc, sentindo um aperto no peito de incerteza.
- Murdoc-san! – Ela chamou – Abre a porta que eu preciso falar com você!
A garota ouviu um grunhido, o que lhe confirmou que o esverdeado estava ali dentro. Ela bateu mais uma vez, mas não obteve resposta.
- MURDOC, ABRE ESSA PORTA! EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AI DENTRO! – ela começou a berrar – ABRE A PORTA OU EU DERRUBO!
Escancarando a porta, com uma garrafa de absinto na mão e uma prostituta sendo jogada pra fora na outra, ele encarou Noodle.
- CARALHO, PÁRA DE BERRAR, COISA! – ele voltou-se para a outra mulher – E você, vai embora, já te paguei!
A mulher saiu da frente dos dois, provavelmente, perdendo-se nos corredores do Kong. Murdoc observara a versão adulta da guitarrista, mandando-a entrar.
- O QUE VOCÊ QUER, PORRA? – ele se jogou no sofá, indicando a cadeira para Noodle, que o ignorou e sentou ao seu lado.
- Preciso falar com você, Niccals. Temos que esclarecer aquela conversa que você deixou pra trás no Record Room!
- Ah, não! – ele segurou a cabeça entre as mãos. – EU TÔ COM UMA PUTA RESSACA E A MOCINHA VEM ME FALAR SOBRE MEU PACTO COM O DEMÔNIO? QUER FALAR SOBRE A CRISE DE 29, SOBRE FÍSICA QUÂNTICA E OUTRAS MERDAS TAMBÉM? – Ele a encarou.
-PÁRA COM ESSA MERDA, MURDOC APHONCE NICCALS! EU TE ATURO HÁ MUITO TEMPO, E TE CONHEÇO BEM! SEI QUE VOCÊ ESTÁ DESCONFORTÁVEL COM ESSE ASSUNTO, MAS VOCÊ VAI ME OUVIR!
Nem a própria Noodle acreditou no que havia dito. Ela manteve o rosto sério, seus braços paralisados e esticados ao lado do corpo. Murdoc estava tão chocado quanto ela. Ele não esperava que a pequena guitarrista crescesse e fosse capaz de enfrentá-lo de tal modo. Nesse ponto, ele começara a duvidar do futuro.
- CROW! – Cortez quebrara o silêncio entre eles. Ele havia aparecido na forma de corvo, mas ao tocar o banco do motorista do Winnebago, voltou a forma humana. – Olá, Noodle. Como vai o futuro? - ele deu uma risada; ela sabia que seu ex/futuro namorado era capaz de ver o futuro.
- Creio que você sabe, tão bem quanto eu, a merda que ele está. – ela sorriu para ele e puxou a cadeira que Murdoc antes havia lhe indicado, sentando-se ao lado do homem – corvo.
- Ah, que legal! Meu corvo é do futuro, também! FUDEU DE VEZ! AGORA É TUDO DO FUTURO, E EU QUE SOU DO PASSADO! SÓ FALTA DIZER QUE VOCÊS DOIS SÃO ALIENS E...
- CALA A BOCA, NICCALS! – Cortez e Noodle gritaram juntos.
- E cadê o Murdoc do futuro também, pra completar o freakshow?
- Com o seu amado faceache, Murdoc! E a propósito: não sou do futuro, eu vejo o futuro, é diferente– Cortez falou.
- Mas deixando isso de lado, temos que conversar Murdoc. – ela engoliu em seco, retomando suas forças para falar. – Eu e o Old Murdoc viemos para cá para te pedir para não fazer esse pacto.
- E como você espera que façamos sucesso, garota?
- Com o nosso talento, Niccals! – ela revirou os olhos. – Sem os seus pactos, sei que somos capazes. Se o Damon e o Jamie acreditaram em nós, eles sabem que somos capazes. Eu sei que sou capaz, o 2D e o Russel também. Só falta você acreditar no nosso potencial, inclusive no seu.
- E como você espera que eu acredite? Levando em conta duas pessoas do futuro, incluindo uma Noodle que aprendeu a falar inglês e é surtada?
- Surtada não: você me mandou para o inferno. Eu fugi, mas você continuou a fazer mais pactos, e isso vai custar a alma de todos da banda. Isso é um resumo da história, Murdoc. E, se eu não te convencer até amanhã, eu e o Murdoc voltaremos para o futuro, a passagem para o inferno fechará e nós morreremos.
- E como isso acontecerá? – ele arqueou as sobrancelhas.
- Não posso contar. Já te dei muitos detalhes desse futuro. Só te peço: acredite em mim.
Os três ficaram calados. Cortez levantou-se, encarou a porta e abriu-a, surpreendendo um Murdoc velho e exausto, prestes a entrar no Winnebago.
Noodle reparou que os olhos do amigo estavam inchados, mas preferiu não comentar. Ele sentou-se no lugar onde Cortez estava antes, e o corvo sentou-se no sofá, puxando a guitarrista para o seu colo.
- O que está acontecendo, agora? – Old Murdoc perguntou, querendo entender o que perdera da conversa.
- Estou esperando a resposta de Murdoc Aphonce Niccals, sobre seus acordos infernais. – Cortez abraçou-a, mas sentia a garota distante “Ela e o 2D, esqueci desse detalhe” pensou, lembrando-se do casal no futuro.
- Eu ainda vou fazer meus pactos! E ponto final!
-Ah, seu filho da...
- Me xingue, vai em frente! Pelo que eu saiba, nós somos os mesmos e nossa mãe é a mesma, idiota!
Enquanto todos começavam a gritar, o homem-corvo mantinha seus olhos vidrados em um ponto. Ele tocou as mãos de Noodle, ainda sobre ele, que o encarou, vendo uma solução em seus olhos.
- O que foi, querido? – a guitarrista tocou o rosto do amigo.
- Noodle, eu vi uma solução. Mas vocês não vão gostar muito...
- Fala logo, papagaio de pirata! – Old Murdoc gritou.
- O “Young Murdoc” pode fazer os pactos dele. Mas, já que vocês estão aqui, isso muda tudo.
- Como assim? – O esverdeado mais velho não entendia – QUE MERDA VAI ACONTECER COMIGO?
- CONOSCO, corrigindo – a garota interveio.
- É simples: vocês interviram no passado, e isso já altera o futuro. O futuro de vocês não existe mais. Vocês vão desaparecer amanhã, à meia-noite.
- Corrigindo, hoje. – Young Murdoc olhou o relógio da cozinha, que marcava meia-noite.
- ENFIM – o corvo se irritou – Vocês serão duas almas perdidas, vagando pelo purgatório, mas, o Murdoc e a Noodle atuais ainda existirão.
- E então?
- O Murdoc pode fazer os pactos dele, desde que vocês dois aceitem ficar no inferno no lugar dele.
- O QUE? – Noodle e Old Murdoc gritaram – E por que nós ficaríamos?
- Por uma simples razão – Cortez prosseguiu – Vocês não irão para o céu, e o purgatório é um tédio. Depois de um dia de sofrimento no inferno, acreditem, vocês voltarão para nós.
- DE QUE MODO? – Murdoc bradou
- Alguém lembra de uma Cyborg louca, Noodle? Ela ainda existirá no futuro... E Murdoc, você conhece o Boogie man, não?
Os dois viajantes no tempo se entreolharam. Sabiam que aqueles dois personagens fariam parte do seu futuro, mas nunca esperavam que fossem eles mesmos.
- E então? Posso fazer meus pactos ou não?
- Pode. – Noodle concordou. – Não pode, Murdoc?
O esverdeado parou e pensou.
- NÃO TEM JEITO NESSA MERDA MESMO! PODE, CARALHO!
- Então vamos. – Young Murdoc falou.
- Mas agora? – Noodle protestou.
- Sim. O ritual tem que acontecer exatamente as 3:33.
Os quatro se entreolharam, em um acordo não verbal mútuo. Saíram do Winnebago, rumando ao Bunker entrance.
Noodle olhara para trás. Vira a porta do quarto de Stu, e ficou tentada a ir falar com ele.
- Murdoc – ela se virou para o satanista mais velho. – Como o 2D está?
- Dormindo – ele pensou e compreendeu o que a menina queria dizer. – Ah, entendi. Vai até lá e fala com ele. Já tive minha chance.
- Você tem dez minutos, volte rápido. - Cortez interferiu.
- Onde ela vai? – Young Murdoc perguntou.
- Se despedir. – Murdoc sussurrou, enquanto a garota ia até a porta do vocalista.
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