Noodle encarou a Cyborg rindo. Sua gargalhada era algo teatralmente exagerado e histérico. A garota-robô ficou revoltada.
– Pareço estar brincando, por acaso? – ela entortou a cabeça e destravou sua arma.
– Ah, desculpe-me. Senti sua seriedade, coisa de lata. – Ela revirou os olhos, recolocando os óculos no rosto. – O que acontece se eu estourar você, aqui e agora? Vão ficar vários pedacinhos de metal pela praia, que horror! E quem limparia? Talvez o faceache...
Cyborg Noodle não pode acreditar no que acabara de ouvir. A Noodle, sua versão gótica, chama seu amado Stuart de faceache?
– Vamos lá, atire. – ela instigou a garota, que recolocou a cruz invertida entre os seios siliconados. – Te garanto que não sou apenas uma máquina. Se quiser pagar pra ver, puxe o gatilho.
– NÃO FAÇA ISSO! – uma voz ecoou pelo elevador, que acabara de se abrir. Como o interior era muito escuro, a robô não conseguira ver, mas sabia de quem era aquela voz.
– Faceache, o que você está fazendo aqui? Volte pro seu quarto agora! – Noodle berrou.
– Você não manda em mim, coisa demoníaca – ele fez uma cara de desinteresse que revoltou internamente a gótica. – Você simplesmente não vai atirar nessa garota!
Ele deu uma boa olhada para a robô. Lembrou-se instantaneamente de seus sonhos... Seria aquela robô que lhe cantou a mais bela música que ele já ouvira?
– Eu mandei você descer para aquela MERDA DE QUARTO, VOCÊ ME ENTENDEU? – Ela virou a arma para Stu, mas a Cyborg encostou o cano de seu revólver contra a cabeça dela.
– Faça algo contra ele, e seu cérebro será espalhado por todo o lobby, Srta. Noodle.
– Sua Cyborg de merda, atire em mim e Murdoc te mata. NICCALS! –Ela gritou, virando o rosto para cima.
Todos ficaram paralisados no lugar. Não tinham mais o que fazer. Se qualquer um se mexesse, uma arma iria ser disparada. Em menos de cinco minutos, Murdoc apareceu no Lobby, vindo pelas escadas.
– MAS QUE PORRA É ESSA? O QUE HOUVE NOODLE?! SERÁ QUE VOCÊ SÓ BERRA E...- Murdoc ficou estático ao ver sua namorada apontando uma arma para o vocalista, e uma garota, diferente na aparência, porém idêntica de rosto à Noodle, apontando uma arma para a mesma.
– Será que você poderia fazer alguma coisa, Niccals? – a gótica falou impaciente.
– Claro. Abaixe sua arma. – ele falou.
– O QUE? – Ela virou o rosto para ele, surpresa.
– Se você matar o faceache, vou ter que achar outro vocalista, e não tenho tempo pra isso. ABAIXA ESSA PORRA DESSA ARMA, NOODLE! – Ela abaixou a arma, mas Cyborg não. – E quem é ela?
– Acho que você me conhece muito bem, Sr. Niccals. Sou a Cyborg Noodle. – Ela sorriu, aquele sorriso maligno que somente ela possuía. – A propósito: Satã mandou lembranças. Disse que te espera ansiosamente.
Ele bufou. Ela retirou a arma da cabeça da gótica e deixou-a ser abraçada por Murdoc. Ele soltou-a, bem grosseiramente para o lado e saiu para analisar a recém-chegada.
– Creio que você não veio sozinha. Onde está o outro? – Ele indagou-a.
– Bem...- ela pensou – Se tivesse algum lugar em que fosse possível observar toda a ilha, eu lhe mostraria...
– Venha comigo. – A gótica seguiu Murdoc como um cãozinho. 2D tomou o elevador junto a eles, ao lado da Cyborg.
– Aqui é o mirante – ele indicou um estranho telescópio para a robô. – Você pode ir, faceache.
– Se não se importa, - a Cyborg protestou – gostaria que ele ficasse aqui. – Murdoc tirou sua mão do ombro do vocalista e deixou-o parado no canto da sala. Parecia mais uma estátua parada ali do que uma pessoa. Noodle fechou sua mão metálica em torno do telescópio, direcionou-o para o píer e deu-o para Murdoc – Ele está bem ali.
Era possível ver Boogie man, sentado sobre um quiosque no píer, falando sozinho e gesticulando. Ele vira o movimento dentro da casa. Murdoc, dentro de Plastic, se espantou ao ver a cabeça de Boogie man virar-se para ele e acenar. Ele afastou-se do telescópio e Noodle tomou sua vez para observar.
– Que coisa grotesca! – a gótica falou, puxando um cigarro do bolso – É mais bizarro que essa coisa malfeita parada aqui na minha frente.
– O que está acontecendo? – Russell chegou na sala, acompanhado por uma garota muito familiar, porém bem desagradável para Cyborg. – Quem é essa?
– Sou a Cyborg Noodle, Sr. Hobbs. Satã me mandou, junto com Boogie ma n – ela indicou o telescópio – para virmos morar com o Sr. Niccals e vocês.
– Coitada, então.- Murdoc sorriu – Os quartos daqui estão cheios. Paula e Russel ocuparam o último. Avise ao Satã que vocês terão de achar outro lugar.
– Não se preoucupe, Sr. Niccals. Boogie Man dormirá lá fora, e eu me encaixo em qualquer lugar. E desculpe-me a intromissão, Sr. Hobbs – ela voltou-se para Russel – Mas você e a Srta. Cracker estão...
– Juntos? – Paula completou – Sim. Troquei esse idiota do Stu pelo Russel – ela abraçou o homem ao seu lado. – E será que você não entendeu? Não há lugar para vocês aqui.
– Ela pode se alojar no meu quarto. – 2D falou por fim, calando a todos. – Já tenho o Cortez morando lá no subsolo comigo, a robô não será problema.
– Hahaha, se você acha... – Murdoc deu de ombros – Só tire esse treco ridículo da minha frente.
Sem trocar mais nenhuma palavra com nenhum dos outros presentes, Cyborg e Stu desceram até o novo quarto dos dois.
– Desculpe-me, mas moro no subsolo. É grande, mas fica abaixo do nível do mar. – ele sorriu, o mesmo sorriso quebrado que Noodle se lembrava.
– Sem problemas. Mas, você não tem medo de baleias? – ela lembrou-o.
– Nem me fale nisso! – Ele riu – Tem uma grande que fica me assustando na janela! Murdoc me colocou aqui de propósito.
Vendo um pano jogado no chão do quarto, ela colocou- o sobre o vidro.
– Pronto, agora nada mais te incomodará.
– Obrigado, Cyborg. Esse aqui, é o Cortez – ele lhe indicou uma gaiola grande ao seu lado. O corvo, que antes saltitava, parou observando a robô. Em um pulo, transformou-se em humano.
– Mi cariño, é você! – ele esticou a mão para fora, tocando o metal frio que era o rosto da Cyborg – o que te fizeram, pequena!?
– Nada demais, Cortez. – ela tentou sorrir, mas acabou assustando-o. - E por que você fica trancado aqui?
– A Noodle odeia animais. Especialmente o corvo do Niccals! Maldita ave que só sabe piar! – Ele imitou a voz afetada da garota perfeitamente, e os três no quarto riram. - Acho que você e o 2D tem muito que conversar, não? Se vocês não se importam, vou dormir um pouco
Ele voltou a sua forma de corvo e aninhou-se em uma pequenina caverna no canto de sua gaiola. Era horrível ver Cortez naquele estado. Cyborg sofria cada vez mais ali dentro.
– Muita coisa para conversar? – Stu inclinou a cabeça – Mas nós mal nos conhecemos... A não ser que... – ele sentou-se na cama e pegou o violão que estava no chão ao seu lado. – Você se importaria se eu tocasse uma música, Cyborg?
– Obviamente não, Sr. Stuart. Comece-a.
Os primeiros acordes de The Last Song Ever começaram a soar do violão. A garota tentou conter-se para não cantar com ele.
– I wish my life was this song... – 2D iniciou a música
– Cause songs, they never die – Cyborg completou.
Stuart parou com a mão no violão, errando a nota seguinte e emitindo um horrível grunhido em seu lugar. Ele levantou e abraçou a robô, que retribuiu o abraço quase que involuntariamente.
– Você é real! Não foi um sonho! Então, Boogie man... ELE É O OLD MURDOC! -2D pulava, comemorando suas constatações. – Mas, você não era assim antes. Você era humana, pequena!
– Sim, eu e o Sr. Boogie man éramos humanos. Senti sua falta, Stuart.
– Eu também, querida, eu também.
Ele encostou seus lábios nos dela, revestidos de titânio, duro e frios como uma rocha, porém, quando o beijo se aprofundou, e ele pode sentir o interior de sua boca, intacta e humana, Stu tremeu.
– É você mesma – ele tocou novamente o rosto dela – você é real. – ele parou e arregalou suas órbitas vazias – Mas Cortez está certo. Ah, meu Deus! O que fizeram com você, minha pequena!?
E assim, Cyborg Noodle reencontrou Cortez e Stuart, a única parte de sua antiga família que permanecera intacta.
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